A Venerável Confraria de Nossa Senhora do Rosário de São João del-Rei,referenciada historicamente em seus primeiros estatutos como Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, é uma associação religiosa estabelecida no período colonial,na localidade de São João del-Rei, estado de Minas Gerais. A instituição atuou como um espaço essencial de sociabilidade, coesão grupal e preservação identitária para a população negra e afrodescendente nos séculos XVIII e XIX. O templo e o acervo da Confraria integram hoje o conjunto histórico sob os cuidados de órgãos de preservação e patrimônio no campo das Vertentes.
Etimologia A titulação "Nossa Senhora do Rosário" fundamenta-se na invocação mariana que obteve maciça adesão das ordens e confrarias leigas, especialmente associadas à população africana no período colonial. O termo complementar "dos Pretos" ou "dos Homens Pretos" era um designativo social e jurídico utilizado para evidenciar a composição étnica dos associados: indivíduos negros escravizados e libertos (forros). Por sua vez, a nomenclatura municipal "São João del-Rei" oficializou-se em 8 de julho de 1713 com a elevação da localidade à categoria de vila, tratando-se de uma homenagem a Dom João V, então Rei de Portugal, e ao sertanista paulista Tomé Portes del-Rei, apontado como primeiro povoador e descobridor do potencial aurífero local.
História A criação da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário de São João del-Rei está associada ao processo de formação das vilas mineradoras e à disseminação das confrarias leigas no contexto do catolicismo colonial português. Embora a data exata de fundação não seja consensual na documentação disponível, fontes institucionais e estudos sobre o patrimônio local indicam que a irmandade já se encontrava organizada nas primeiras décadas do século XVIII, acompanhando o crescimento urbano e demográfico da vila.
Irmandades do Rosário e população negra A consolidação estrutural da Irmandade operou-se em meio ao intenso fluxo migratório ocasionado pela exploração de ouro no antigo Arraial do Rio das Mortes, estabelecido oficialmente após o desfecho da Guerra dos Emboabas (1708-1709). O escopo da Irmandade englobava a promoção do auxílio mútuo, a arrecadação de fundos para alforrias e o financiamento dos ritos mortuários, elementos indispensáveis para a sobrevivência social do negro no Brasil monárquico. Conforme estudos de micro-história e cruzamentos onomásticos registrados na academia, a Confraria continha subdivisões e hierarquias que organizavam os diferentes grupos cativos e libertos, viabilizando uma articulação política velada sob as insígnias do catolicismo através da devoção a figuras protetoras. As irmandades dedicadas a Nossa Senhora do Rosário foram, no Brasil colonial, espaços preferenciais de organização religiosa de africanos escravizados, libertos e seus descendentes. Além da devoção mariana, essas associações desempenhavam funções assistenciais, funerárias e identitárias. Embora o estudo de Scarano se refira a outra região de Minas Gerais, ele é amplamente utilizado pela historiografia para compreender o funcionamento e o papel social das irmandades do Rosário, incluindo aquelas sediadas em centros urbanos como São João del-Rei.
Fundação A edificação original gerida pela Confraria iniciou-se em princípios do século XVIII, com registros literários locais indicando o marco da fundação da primitiva capela no ano de 1708, o que confere a ela o título de igreja mais antiga da zona urbana de São João del-Rei. As frentes do arraial original formaram-se cerca de 1704. A atual Igreja de Nossa Senhora do Rosário apresenta-se com alvenaria, forro e altares salvaguardados em diversas instâncias. Recentemente, a estrutura histórico-religiosa das igrejas de origem colonial vem sendo alvo de intervenções técnicas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), responsável pelo amparo federal a bens imóveis tombados em Minas Gerais.
Situação contemporânea A Irmandade permanece como uma entidade existente e seu extenso legado burocrático continua influenciando as frentes de pesquisa acadêmica em todo o país. Fontes catalogadas, incluindo livros de "Atas e deliberações da Mesa Administrativa" (1936-1962), termos de bênçãos e cadernos financeiros, demonstram a perenidade de sua operação litúrgica e contábil ao longo dos séculos. O acervo segue armazenado, sofrendo processos sistemáticos de tratamento contra acidez do papel e higienização em núcleos universitários de conservação, atestando seu valor de fonte historiográfica primária de peso científico.A Irmandade permanece ativa, participando das celebrações religiosas locais e contribuindo para a preservação de tradições históricas vinculadas à religiosidade popular e à memória afro-brasileira em São João del-Rei.
Religiosidade O cerimonial devocional da Irmandade era polifacetado, estruturado além da padroeira titular para englobar os altares de devoção associados à emancipação física e espiritual. Um dos pilares históricos identificados foi o culto à Nossa Senhora dos Remédios, que carrega as valências simbólicas de restabelecimento de saúde e a luta pela liberdade nos estratos negros do século XIX. Somam-se também os registros em São João del-Rei de comemorações relativas a Nossa Senhora da Boa Morte, tradição atestada historicamente que mantinha toques sineiros singulares e era de suma importância místico-religiosa para o consolo da população escravizada local em 14 de agosto.
Funções religiosas e sociais A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário de São João del-Rei atuou historicamente na promoção de:
cultos e festas religiosas; auxílio mútuo entre seus membros; organização de sepultamentos; preservação de práticas religiosas e culturais. Essas atividades inserem a confraria no quadro mais amplo do chamado catolicismo popular no Brasil.
Patrimônio histórico A Igreja de Nossa Senhora do Rosário, construída pela Irmandade, integra o conjunto arquitetônico e religioso do centro histórico de São João del-Rei. Reconhecida por sua relevância patrimonial em âmbito estadual e nacional, figura categoricamente entre os roteiros turísticos prioritários de quem visita São João del-Rei. O templo conserva elementos artísticos e simbólicos associados à devoção do Rosário e à presença histórica da população negra na cidade, em virtude de sua antiguidade declarada na configuração urbana. Associado ao turismo religioso motivado pelas tradições das confrarias remanescentes, a região explora nichos integrados que mobilizam o fluxo turístico em MG, tais como: passeios históricos da Maria Fumaça (locomotiva do século XIX ligando Tiradentes a ), vertentes do ecoturismo, e exploração do complexo barroco em torno da área de descobrimento central (Rio das Mortes).
Ver também Irmandade religiosa Catolicismo popular História de São João del-Rei
Referências
Bibliografia Boschi, Caio César (2025). Os leigos e o poder: irmandades leigas e política colonizadora em Minas Gerais. São Paulo: Hucitec. ISBN 9788584045242 Scarano, Julita (1975). Devoção e escravidão. São Paulo: Companhia Editora Nacional Souza, Laura de Mello e (2002). O diabo e a Terra de Santa Cruz. São Paulo: Companhia das Letras. ISBN 9788535901085