Solar dos Lustosa é um sobrado histórico localizado no centro histórico de São João del-Rei, em Minas Gerais, Brasil. Situado na Praça Embaixador Gastão da Cunha, tradicionalmente conhecida como Largo do Rosário, o imóvel integra o conjunto arquitetônico tombado do município e constitui exemplar significativo da arquitetura civil do início do século XIX. Construído por volta de 1810, o edifício apresenta características da arquitetura colonial mineira com influências ecléticas e neoclássicas, refletindo transformações urbanas ocorridas após a transferência da corte portuguesa para o Brasil em 1808. Ao longo de sua história, esteve vinculado à elite mercantil local e à família Lustosa, mantendo-se até o presente sob posse de seus descendentes. Além de seu valor arquitetônico, o imóvel destaca-se por sua associação à história econômica e científica local, tendo abrigado o laboratório do dentista Paulo de Almeida Lustosa, inventor da chamada “Cera Dr. Lustosa”.

Localização e contexto urbano O Solar dos Lustosa situa-se no Largo do Rosário, área considerada núcleo primitivo da ocupação urbana de São João del-Rei, nas proximidades da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, uma das mais antigas da cidade. O entorno é caracterizado por edificações de um a dois pavimentos, com alinhamento contínuo e linguagem arquitetônica predominantemente colonial, compondo um conjunto paisagístico homogêneo e de elevado valor histórico. A região apresenta intenso fluxo de moradores e turistas, sendo um dos principais pontos de visitação da cidade.

História

Origem e construção A edificação foi construída no início do século XIX, por volta de 1810, pelo coronel Sabino de Almeida Magalhães (1793–1871), importante comerciante e figura de destaque político e econômico na cidade. Inicialmente, o terreno abrigava uma casa de menores proporções, posteriormente ampliada e transformada em sobrado por meio de sucessivas intervenções promovidas pela família. O imóvel passou à família Lustosa por meio do casamento de Delfina Eugênia de Almeida Magalhães com João Batista Pimentel Lustosa, consolidando a denominação tradicional de "Solar dos Lustosa".

Função social e econômica Como era comum nos sobrados urbanos do período colonial, o edifício possuía uso misto, com atividades comerciais no pavimento térreo e residência no andar superior. O coronel Sabino mantinha no local um estabelecimento voltado ao comércio de gêneros nacionais e estrangeiros, inserindo o imóvel na dinâmica mercantil da cidade, que experimentava crescimento econômico no período pós-mineração aurífera.

Transformações no século XX No início do século XX, o pavimento térreo passou a abrigar o consultório e o laboratório do dentista Paulo de Almeida Lustosa, responsável pela criação da “Cera Dr. Lustosa”, produto que alcançou notoriedade nacional. O imóvel sofreu diversas adaptações ao longo do tempo, incluindo ampliações nos fundos, adequações estruturais e modificações internas para atender às demandas do laboratório e da residência familiar.

Uso contemporâneo Atualmente, o Solar dos Lustosa mantém uso diversificado. Parte do imóvel abriga a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de São João del-Rei, enquanto outra parte permanece como residência da família e espaço de produção da cera tradicional.

Arquitetura O Solar dos Lustosa apresenta características típicas da arquitetura colonial mineira, com influências ecléticas e elementos neoclássicos incorporados ao longo do tempo. Trata-se de um sobrado de dois pavimentos, com estrutura mista em alvenaria de adobe e pau-a-pique, fundação em pedra e cobertura em telhas cerâmicas. A fachada principal é marcada por composição simétrica e ritmo regular de vãos, destacando-se:

varanda contínua no segundo pavimento; guarda-corpo em ferro; colunas com influência dórica; esquadrias de madeira com vedação em vidro. O imóvel apresenta volumetria composta, com acréscimos posteriores nos fundos que alteraram parcialmente sua configuração original.

Estado de conservação O edifício encontra-se em estado geral de conservação classificado como regular, apresentando problemas estruturais decorrentes de infiltrações, umidade e ataque de xilófagos. Entre os principais fatores de degradação identificados estão:

deterioração de elementos em madeira; infiltrações no telhado; desgaste de revestimentos; interferências arquitetônicas posteriores. Medidas de conservação recomendadas incluem manutenção periódica, revisão das instalações e tratamento das estruturas afetadas.

Proteção e tombamento O Solar dos Lustosa integra o conjunto arquitetônico protegido de São João del-Rei, reconhecido em âmbito federal desde 1947, além de possuir tombamento municipal individualizado por meio do Decreto n.o 3429, de 15 de junho de 2007. A edificação encontra-se inserida em área de proteção histórica e paisagística, compondo um dos núcleos mais antigos da formação urbana da cidade, associado ao Largo do Rosário. O tombamento abrange tanto o valor arquitetônico do imóvel quanto sua relevância histórica, especialmente no que diz respeito à preservação da memória das elites mercantis e das práticas econômicas urbanas do século XIX.

Características arquitetônicas detalhadas

Implantação e volumetria O imóvel está implantado em terreno em aclive, com relação direta com o alinhamento da via pública. Sua volumetria é composta por dois pavimentos, com projeção do segundo nível em sacada sobre a calçada. Apresenta organização espacial irregular em decorrência de acréscimos posteriores, sobretudo na porção dos fundos, onde há estruturas anexas e ampliações.

Sistema construtivo O sistema construtivo é característico das edificações coloniais mineiras, combinando:

fundações em pedra; alvenaria em adobe e pau-a-pique; estrutura em madeira; elementos posteriores em concreto. A cobertura apresenta múltiplas águas, com telhas cerâmicas dos tipos capa e bica, francesa e portuguesa, além de intervenções modernas com fibrocimento.

Fachada principal A fachada principal apresenta composição harmônica, com ritmo regular de vãos distribuídos em dois pavimentos. Destacam-se:

colunas com base em pedra e capitéis de inspiração dórica; varanda contínua no pavimento superior; guarda-corpo em ferro; molduras em madeira; vergas em arco abatido. A relação entre cheios e vazios é equilibrada, reforçando a estética ordenada típica da arquitetura urbana do período.

Fachada posterior e alterações A fachada posterior apresenta caráter mais heterogêneo e desarmônico, resultado de sucessivas intervenções realizadas ao longo do tempo. Entre as alterações identificadas estão:

acréscimos construtivos; inserção de materiais contemporâneos; desalinhamento de vãos; presença de estruturas utilitárias aparentes. Essas modificações refletem a adaptação do imóvel às demandas funcionais modernas, especialmente relacionadas ao uso institucional e industrial artesanal.

Espaços internos O interior do imóvel apresenta organização funcional adaptada ao longo do tempo, com grande diversidade de materiais e soluções construtivas. Entre os elementos identificados destacam-se:

pisos em madeira, cerâmica, pedra e ladrilho hidráulico; forros em madeira, lambri e PVC; paredes com revestimentos variados, incluindo azulejos e reboco pintado. As alterações internas incluem:

supressão e criação de vãos; instalação de divisórias; adaptações para uso administrativo e industrial. Apesar das modificações, ainda são preservados elementos originais que permitem a leitura da configuração histórica do edifício.

Importância histórica e cultural O Solar dos Lustosa constitui um importante testemunho da formação urbana e social de São João del-Rei no período pós-mineração aurífera, quando a cidade se consolidou como centro comercial regional. Sua construção está diretamente associada à ascensão de famílias ligadas ao comércio e à política local, como os Almeida Magalhães, evidenciando o papel das elites na conformação do espaço urbano. Além disso, o imóvel representa a transição entre a arquitetura colonial tradicional e a incorporação de elementos ecléticos e neoclássicos, refletindo mudanças culturais e estéticas do início do século XIX. No século XX, sua associação ao laboratório da “Cera Dr. Lustosa” amplia sua relevância histórica, conectando o edifício à história da odontologia e da produção farmacêutica artesanal no Brasil. O solar também possui valor simbólico por sua permanência como residência familiar ao longo de gerações, preservando práticas culturais e memórias locais.

Referências

Bibliografia Gaio Sobrinho, Antônio (2001). Visita à Colonial Cidade de São João del Rei. São João del-Rei: Funrei Graça Filho, Afonso de Alencastro (2002). A princesa do oeste e o mito da decadência de Minas. São Paulo: Annablume Reis Filho, Nestor Goulart (1997). Quadro da arquitetura no Brasil 8 ed. São Paulo: Perspectiva BDMG Cultural (2006). Origens Históricas de São João del Rei. Belo Horizonte: BDMG Cultural Guimarães, Geraldo (1996). São João del Rei: Século XVIII – História Sumária. São João del-Rei: Edição do autor Brugger, Silvia Maria Jardim (2002). Minas patriarcal e sociedade: São João del-Rei (séculos XVIII e XIX) (Tese). Universidade Federal Fluminense Prefeitura Municipal de São João del-Rei (2012). Inventário de estruturas arquitetônicas: Solar dos Lustosa (Relatório). São João del-Rei: Secretaria Municipal de Cultura e Turismo. pp. 1–42