Joana da Silva Machada (Costa da Mina, África, c. início do século XVIII — Arraial dos Carijós, capitania de Minas Gerais, 1747) foi uma mulher africana escravizada, posteriormente alforriada na América Portuguesa. Seu legado é analisado a partir do seu testamento, registrado em Recife na capitania de Pernambuco, e encomendado pela própria, dois anos antes de seu falecimento. Atualmente, esse registro faz parte de um acervo localizado no Arquivo Histórico de São João del-Rei (MG), do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Segundo o testamento, Joana não declarava ter família e nem moradia fixa, era uma “mulher de caminho”. Vivia do comércio de diversos tipos de objetos, principalmente relacionados ao vestuário. Algo verificado por meio de seu inventário post-mortem de 1748, composto por vários tipos de tecido, roupas prontas, lençóis, toalhas, sapatos, roupas de uso, roupas de cama e de mesa, chapéus, bordados em ouro, renda em prata, entre outros. Seguia, portanto, uma vida de comerciante itinerante, percorrendo extensas travessias. Por exemplo, logo após o registro de seu testamento em Recife, mudou-se para a região de Minas, onde terminou sua vida na vila Arraial dos Carijós, morando na estalagem de Manuel Antunes. Com sua nova condição econômica obtida pelo comércio, ela se tornou proprietária de joias e diversos bens, além de ser dona de três escravizados: Antônio Angola, Maria (da mesma nação) e Francisca Mina. Ainda há registros de ter alforriado Francisca em 1745 sem condição alguma. Entretanto essa se manteve ao seu lado até o final de sua vida.

Contexto histórico A trajetória de Joana da Silva Machada está ligada ao contexto da mineração na capitania de Minas Gerais durante o século XVIII Nesse período, a sociedade era marcada pela escravidão africana e pela exploração do ouro. Milhares de africanos foram trazidos à força para o Brasil para trabalhar nas minas, nos serviços urbanos e nas casas das elites coloniais. Neste contexto, o crescimento das vilas mineiras criou espaços urbanos onde algumas mulheres negras conseguiam atuar como comerciantes, quitandeiras ou prestadoras de serviços. Os registros de Joana indicam a participação nesse circuito comercial itinerante, principalmente na venda de artigos de vestuário.

Trajetória como comerciante Após conquistar a liberdade, estabeleceu-se como negociante itinerante, circulando entre importantes centros econômicos da colônia, como Recife, Bahia, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Sua trajetória é conhecida principalmente por meio de seu testamento, redigido em 1745 na Vila de Santo Antônio do Recife, e de seu inventário post-mortem, produzido após sua morte, ocorrida em 1747, no Arraial dos Carijós, em Minas Gerais. Os documentos revelam que Joana atuava no comércio de tecidos, roupas, joias e outros objetos, integrando redes de circulação de mercadorias entre diferentes capitanias da colônia. Joana é frequentemente associada ao grupo das chamadas “mulheres de caminho”, termo utilizado para designar mulheres que participavam das atividades comerciais itinerantes em um contexto predominantemente masculino. Seu patrimônio incluía peças de vestuário, tecidos finos, objetos religiosos, utensílios domésticos, joias de ouro e prata, além de pessoas escravizadas sob sua posse. Os registros também demonstram que mantinha uma extensa rede de contatos distribuída por diferentes regiões do Brasil colonial. Em seu testamento, nomeou diversos testamenteiros residentes na Bahia, Rio de Janeiro, Sabará, Serro do Frio e Minas Novas, indicando a amplitude de suas conexões comerciais e pessoais. A trajetória de Joana da Silva Machada é utilizada por historiadores como exemplo da participação de mulheres negras libertas na economia colonial, evidenciando estratégias de mobilidade social, autonomia econômica e inserção em circuitos comerciais do período escravista.

Referências