Um socorrista combate um incêndio em casas residenciais destruídas em um ataque russo a Kharkiv, Ucrânia — Foto: AP/Andrii Marienko

Zelensky diz que Rússia mantém ataques à Ucrânia apesar de cessar-fogo anunciado por Trump
Zelensky diz que Rússia mantém ataques à Ucrânia apesar de cessar-fogo anunciado por Trump · Imagem: Source: g1.globo.com

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirmou nesta segunda-feira (12) que a Rússia continuou atacando instalações de energia ucranianas mesmo depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar um cessar-fogo entre os dois países para interromper bombardeios contra a infraestrutura energética.

O anúncio foi feito por Trump no domingo (11), em uma publicação nas redes sociais. Segundo o presidente americano, Rússia e Ucrânia haviam concordado em suspender imediatamente os ataques às instalações de energia uma da outra. Ele, no entanto, não apresentou detalhes sobre o suposto acordo.

Nesta segunda, o Kremlin afirmou que os contatos sobre a proposta de cessar-fogo continuam em andamento e que divulgará informações oportunamente. O governo russo não confirmou a existência de um acordo e se recusou a esclarecer se a possível trégua se restringiria aos ataques contra refinarias de petróleo.

Durante participação no Fórum de Segurança de Varsóvia, na Polônia, Zelensky disse que o governo ucraniano soube do anúncio de Trump pela imprensa e que não recebeu confirmação de Moscou sobre a suspensão dos ataques.

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O presidente afirmou que a Ucrânia está disposta a respeitar um cessar-fogo energético, desde que a Rússia faça o mesmo.

"Apoiamos a proposta, mas não ouvi nenhuma aprovação por parte da Rússia", declarou.

Segundo Zelensky, após a publicação de Trump, forças russas atingiram uma usina de energia em Kharkiv, no nordeste da Ucrânia, além de uma instalação de produção de gás e um posto de combustíveis.

"Ficou claro que Putin não lê o Truth Social", ironizou o presidente ucraniano, em referência à rede social usada por Trump para anunciar o suposto acordo.

A Rússia ainda não apresentou uma resposta definitiva à proposta americana.

Ataques à infraestrutura energética continuam

A suspensão dos ataques ao setor energético é um dos pontos discutidos nas negociações para tentar encerrar a guerra, iniciada com a invasão russa em fevereiro de 2022.

Ao longo do conflito, a Rússia tem bombardeado instalações responsáveis pelo fornecimento de eletricidade, aquecimento e água na Ucrânia. Os ataques prejudicam especialmente a população civil durante o inverno, quando as temperaturas caem drasticamente.

Um homem ferido recolhe seus pertences pessoais em frente à sua casa destruída em um ataque russo em Kharkiv, Ucrânia, domingo, 11 de outubro de 2026 — Foto: AP/Andrii Marienko

A Ucrânia, por sua vez, tem atacado refinarias de petróleo e outras instalações energéticas russas, inclusive em regiões distantes da fronteira.

Zelensky afirmou nesta segunda-feira que Kiev está disposta a interromper os ataques às refinarias russas caso Moscou suspenda os bombardeios contra a infraestrutura energética ucraniana.

O presidente também pediu que Trump pressione o governo de Vladimir Putin para que a proposta seja cumprida.

Segundo Zelensky, uma trégua nesse setor poderia representar um primeiro passo para o encerramento da guerra. Ele advertiu, porém, que a Ucrânia continuará respondendo militarmente caso os ataques russos persistam.

Não é a primeira vez que Trump anuncia um entendimento semelhante. Em 14 de setembro, o presidente americano afirmou que os dois países haviam concordado em não atacar instalações energéticas um do outro. A declaração também não foi acompanhada de detalhes, e os bombardeios continuaram.

União Europeia demonstra ceticismo sobre acordo

A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, afirmou nesta segunda-feira que ainda não há sinais de que Moscou esteja disposta a cumprir um eventual cessar-fogo.

Um socorrista combate um incêndio em casas residenciais destruídas em um ataque russo a Kharkiv, Ucrânia, — Foto: AP/Andrii Marienko

Durante uma reunião de ministros das Relações Exteriores do bloco, em Luxemburgo, Kallas disse que uma trégua deveria abranger não apenas a infraestrutura energética, mas também os ataques contra a população.

A discussão ocorre em meio a novas tensões entre Washington e Kiev.

Na sexta-feira (9), Trump anunciou um acordo com Putin para permitir a importação de diesel russo, numa tentativa de reduzir os preços dos combustíveis antes das eleições legislativas americanas de novembro.

A medida provocou críticas de autoridades europeias e de parlamentares americanos. Um grupo de seis senadores dos Estados Unidos, incluindo quatro republicanos, pediu ao governo que reverta o entendimento, sob o argumento de que a compra de combustível poderia ampliar os recursos financeiros disponíveis para a Rússia durante a guerra.

O ministro das Relações Exteriores da Estônia, Margus Tsahkna, também questionou os efeitos da medida sobre os preços internacionais e afirmou acreditar que a decisão está mais relacionada à situação política interna dos Estados Unidos.

Ataques russos deixam três mortos e feridos

Enquanto as negociações continuam, novos bombardeios foram registrados na Ucrânia.

Um ataque com drone russo contra a vila de Pisochyn, na região de Kharkiv, deixou três mortos e nove feridos, incluindo crianças, na noite de domingo (11), segundo o Ministério Público regional.

De acordo com os investigadores, o equipamento atingiu uma área densamente povoada, próxima a edifícios residenciais e supermercados, e provocou um incêndio.

Em Kiev, duas pessoas ficaram feridas durante ataques aéreos nesta segunda-feira. Destroços de equipamentos russos provocaram um incêndio em uma residência no distrito de Darnytskyi, segundo a administração militar da capital.

A Força Aérea ucraniana informou ter abatido ou neutralizado 89 dos 121 drones lançados pela Rússia durante a noite. Também foi identificado o lançamento de um míssil guiado. Houve registros de ataques em 15 locais do país.

Do lado russo, o Ministério da Defesa afirmou ter interceptado 151 drones ucranianos durante a madrugada, sobre regiões da Rússia, da Crimeia anexada por Moscou e do Mar Negro.

O governo russo também declarou ter atacado instalações portuárias ucranianas e um navio cargueiro que, segundo Moscou, transportava material militar em direção ao porto de Odessa. As informações das partes sobre os ataques não puderam ser verificadas de forma independente.

Eleições se houver cessar-fogo de 60 dias

As divergências entre Trump e Zelensky também envolvem a realização de eleições presidenciais na Ucrânia.

No sábado (10), o presidente americano afirmou que o país deveria ter um novo líder e criticou Zelensky por, segundo ele, não fazer o suficiente para encerrar a guerra.

Em resposta, o presidente ucraniano disse nesta segunda-feira que a realização de eleições é inviável enquanto o país enfrenta ataques russos durante o dia e a noite.

Zelensky afirmou, no entanto, que estaria disposto a trabalhar para viabilizar uma votação caso a Ucrânia obtivesse um cessar-fogo completo de pelo menos 60 dias.

A legislação ucraniana impede a realização de eleições nacionais durante a vigência da lei marcial, em vigor desde o início da invasão russa.

Segundo Zelensky, uma eventual suspensão dos combates permitiria discutir com o Parlamento as condições necessárias para organizar o processo eleitoral.