Em três décadas, o Brasil usou 14 versões da urna eletrônica; veja a evolução do hardware, os saltos de segurança e quais modelos serão usados no pleito de 2026.

A urna eletrônica completa três décadas de uso oficial nas eleições do Brasil. A primeira votação automatizada aconteceu no ano de 1996 em 57 cidades brasileiras e alcançou 30% do eleitorado nacional da época. O sistema desenvolvido pelo Tribunal Superior Eleitoral modernizou as seções com o fim do voto em cédulas de papel. A inovação assegurou rapidez na apuração e mitigou fraudes na contagem dos votos.

A Justiça Eleitoral operou 14 versões diferentes de hardware e software no decorrer da consolidação da plataforma. As atualizações inseriram recursos avançados de acessibilidade para eleitores com necessidades especiais. O desenvolvimento criptográfico e a implementação da leitura biométrica elevaram as barreiras de segurança. O TechTudo resgatou as etapas da evolução das máquinas que sustentam a democracia no país. Confira!

🔎 Urna eletrônica: veja quais modelos serão usados nas Eleições 2026

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Novo modelo da urna eletrônica foi apresentado pelo Tribunal Superior Eleitoral em 2021 — Foto: Abdias Pinheiro/SECOM/TSE

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1. Como surgiu a urna eletrônica no Brasil?

O desejo de automatizar, de alguma forma, o registro e a contagem de votos nas eleições brasileiras vem de longa data. Já na década de 1930, o Código Eleitoral previa a possibilidade de uso de uma “máquina de votar”, e, ao longo dos 40 anos seguintes, diversos inventores criaram protótipos que não chegaram a ser utilizados na prática. Nos anos 1970 e 1980, a Justiça Eleitoral começou a informatizar seus sistemas internos, facilitando a comunicação entre os diferentes tribunais regionais e agilizando a totalização dos votos.

Máquina de votar criada pelo inventor mineiro Sócrates Ricardo Puntel. Equipamento não chegou a ser usado em eleições. — Foto: Divulgação/TSE

A primeira vez em que o eleitor teve a chance de votar em um equipamento eletrônico foi nas eleições gerais de 1989. Tudo começou quando o juiz eleitoral do município de Brusque (SC) utilizou um computador para coletar votos em apenas uma seção eleitoral. A partir de 1991, outras experiências com voto em computadores foram realizadas em plebiscitos e eleições pelo estado de Santa Catarina. Foi o exemplo catarinense que convenceu a Justiça Eleitoral, em 1994, de que seria necessário informatizar o sistema eleitoral para acabar com as fraudes.

Computador com teclado adaptado para utilização em eleições em Santa Catarina, na década de 1990. — Foto: Divulgação/TSE

O projeto que deu origem às urnas que conhecemos surgiu no ano seguinte, quando foi criada uma comissão de informatização do voto. O grupo analisou protótipos de urna eletrônica apresentados pelos TREs de diferentes estados. O projeto gaúcho, por exemplo, tinha vários elementos incorporados ao design final, como impressora com bobina de papel e terminal para o mesário;

Protótipo de urna eletrônica desenvolvido pelo TRE-RS — Foto: Divulgação/TSE

O protótipo desenvolvido por Mato Grosso era similar, com destaque para a urna embutida em uma maleta para facilitar o transporte;

Protótipo de urna eletrônica desenvolvido pelo TRE-MT — Foto: Divulgação/TSE

A urna apresentada por Minas Gerais foi considerada a mais completa, mas o TSE rejeitou a ideia de utilizar um “cartão de voto” de papel que pudesse registrar a escolha do eleitor.

Protótipo de urna eletrônica desenvolvido pelo TRE-MG — Foto: Divulgação/TSE

Com base nessas ideias, foi desenvolvido um edital para a contratação de uma empresa responsável por produzir as primeiras urnas. O projeto era customizado, pertencente à própria Justiça Eleitoral. A fabricante Unisys foi contratada no início de 1996 e produziu 77.969 unidades do primeiro modelo — o UE1996 —, usadas na eleição daquele mesmo ano.

A primeira urna eletrônica possuía um hardware modesto por escolha técnica — Foto: Reprodução/João Miguel Junior / O Globo

2. UE1996: como era a primeira urna eletrônica?

O modelo pioneiro de urna eletrônica foi utilizado, em 1996, na escolha dos prefeitos nos municípios com mais de 200 mil eleitores, além da cidade de Brusque/SC, correspondendo a aproximadamente 30% do eleitorado nacional.

O equipamento foi pensado para garantir robustez e baixo custo, contando com componentes baratos e poder computacional modesto até para a época (e irrisório se comparado ao das urnas atuais). A urna contava com processador Intel 386SX de 40 MHz, representante de uma geração de chips ainda da década de 1980. Naquele período, computadores domésticos com processadores de 100 a 200 MHz já eram comuns.

UE1996, primeiro modelo de urna eletrônica — Foto: Divulgação/TSE

A memória RAM era de apenas 2 MB, suficiente apenas para operações básicas. Para efeito de comparação, um computador com Windows 95, por exemplo, precisava de pelo menos 8 MB para funcionar. Como mídia de armazenamento, eram usados dois disquetes de 1,44 MB — frágeis, mas dentro do padrão da época. O primeiro modelo de urna eletrônica também foi criado com teclado numérico igual ao de um telefone, impressora de bobina e tela de LCD monocromática. Nas teclas, os números foram gravados também em braille, marcando a presença de recursos de acessibilidade desde o início.

3. UE1998 e UE2000: urna começa a ganhar novos recursos

O segundo modelo de urna, a UE1998, trouxe inovações importantes. Foi o primeiro a mostrar a foto de todos os candidatos e, a partir dele, a impressão individual do voto deixou de ser realizada. O poder computacional também cresceu consideravelmente: o processador passou a ser o Cyrix Geode GXLV, de 166 MHz, a memória RAM aumentou para 8 MB e a mídia de armazenamento passou a ser um Flash Card de 15 MB.

UE1998, segundo modelo de urna eletrônica — Foto: Divulgação/TSE

Sua sucessora, a UE2000, trouxe novos recursos de acessibilidade. O equipamento ganhou saída de áudio para fone de ouvido e sensibilidade tátil e audível no teclado do terminal do eleitor. Ela estreou nas eleições municipais do ano 2000, marcando a primeira vez em que 100% do eleitorado utilizou urnas eletrônicas e o voto em cédula de papel foi integralmente aposentado.

4. UE2002, UE2004 e UE2006: segurança e biometria entram em cena

Os modelos seguintes representaram um aumento gradual no poder computacional e incorporaram novos recursos de segurança. A UE2002 trouxe um módulo de impressão de votos externo, utilizado em caráter experimental nas eleições daquele ano. A ideia era que os comprovantes impressos ficassem armazenados no próprio módulo para servir como contraprova em caso de recontagem. A Justiça Eleitoral considerou que a ideia não agregou em termos de segurança e trouxe transtornos logísticos, descontinuando o sistema nos pleitos seguintes.

UE2002 contava com módulo de impressão e coleta dos comprovantes de voto — Foto: Divulgação/TSE

Também em 2002, as entidades fiscalizadoras passaram a ter novas oportunidades de auditar o processo. Os sistemas eleitorais passaram a ser assinados em cerimônia pública e outros ritos foram incorporados ao calendário:

- A cerimônia de lacração dos sistemas;

- A fiscalização amostral de ofício nas cerimônias de carga das urnas eletrônicas;

- A emissão da tabela de correspondência das urnas preparadas para a eleição;

- O Teste de Integridade no dia da votação.

A UE2004 começou a gerar o Registro Digital do Voto (RDV) e, pela primeira vez, os códigos-fonte dos sistemas eleitorais foram abertos para auditoria por entidades externas. Já a UE2006 foi a primeira a receber leitores de impressões digitais, dando início aos testes práticos de identificação biométrica dos eleitores.

5. UE2008 e UE2009: novas camadas de segurança

Os modelos do final dos anos 2000 ganharam melhorias significativas de software e hardware, tornando o pleito ainda mais protegido. A partir da UE2008, os equipamentos passaram a utilizar o sistema operacional Uenux, baseado em Linux e desenvolvido pelos técnicos da própria Justiça Eleitoral para uso exclusivo nas urnas. Nas eleições municipais daquele ano, eleitores de três cidades começaram a utilizar a biometria para votar.

Já as urnas UE2009 foram as primeiras a receber um módulo de segurança em hardware, responsável por uma camada extra de criptografia. Além disso, esse modelo foi o primeiro a substituir os cartões de memória antigos por mídias seguras baseadas em conexão USB.

UE2009, já com leitor biométrico — Foto: Divulgação/TSE

6. UE2010, UE2011, UE2013 e UE2015: consolidação da primeira geração

Praticamente idênticos em termos de hardware, os quatro lotes seguintes receberam melhorias no leitor biométrico (a partir da UE2011) e no sistema Uenux. A UE2015, última representante da “primeira geração” de urnas, marcou a chegada dos QR Codes impressos nos Boletins de Urna e o lançamento do aplicativo Boletim na Mão, que permite escanear os códigos e obter cópias digitais dos resultados imediatamente após a votação.

Urna eletrônica modelo UE2015 — Foto: Divulgação/TSE

7. UE2020 e UE2022: nova geração ganha mais processamento e tela sensível ao toque

Fabricadas pela Positivo a partir de 2021, as urnas mais modernas trouxeram um grande salto para o processo eleitoral. A UE2020 teve sua capacidade de processamento multiplicada em cerca de 18 vezes em relação à UE2015. O equipamento passou a contar com o processador Intel Atom E3940 e 4 GB de memória RAM DDR3L. A mudança mais notada pelo eleitor foi no design: os modelos recentes têm um gabinete mais vertical, com a tela colorida posicionada acima do teclado, em vez de ao lado.

Outra inovação importante foi a inclusão de uma tela sensível ao toque no terminal do mesário. O hardware de segurança criptográfico também foi aprimorado e as baterias utilizadas em caso de falta de energia passaram a ser de lítio-ferro-fosfato, que oferecem maior durabilidade e não requerem manutenção constante como as de chumbo-ácido. Praticamente idêntica à versão anterior, a UE2022 trouxe ajustes pontuais de montagem e ampliou o parque de urnas da Justiça Eleitoral.

Urna eletrônica do modelo UE2020 — Foto: Divulgação/TSE

8. Quais urnas serão usadas nas Eleições 2026?

Nas Eleições Gerais de 2026, o TSE mobilizará 563.910 urnas, distribuídas entre quatro modelos: UE2022, UE2020, UE2015 e UE2013. A nova geração responderá por quase 80% dos aparelhos em uso, com 222.323 urnas UE2020 e 217.145 urnas UE2022. Já os modelos de geração anterior somarão cerca de um quarto do total, com 95.065 unidades da UE2015 e 29.377 da UE2013. A distribuição por zona e seção eleitoral segue o planejamento logístico de cada Tribunal Regional Eleitoral nos estados, sob coordenação e supervisão do TSE.

Quadro comparativo dos modelos de urna eletrônica — Foto: Divulgação/TSE

Com informações de TSE

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