Rui Costa revisita carreira e fala sobre polêmicas no São Paulo

Os últimos meses foram marcantes para Rui Costa. Executivo de futebol do São Paulo de janeiro de 2021 a junho de 2026, quando foi demitido, o gaúcho de 55 anos tem muito mais a contar além de detalhar a polêmica demissão de Hernán Crespo, então vice-líder do Campeonato Brasileiro.

Do início na portaria do Grêmio ao desemprego atual, Rui Costa viveu de tudo um pouco no futebol. Demitiu grandes técnicos, como Vanderlei Luxemburgo e Rogério Ceni, negociou com estrelas, ajudou a reconstruir a Chapecoense e montou um time campeão no São Paulo.

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Mas as feridas provocadas pela controversa decisão contra Crespo ainda estão abertas... Só que não a ponto de causar arrependimento no executivo de futebol. Ele faria tudo de novo:

– Se tivesse os subsídios, os insumos e as percepções que tive com outras pessoas naquele momento, eu teria demitido.

Abre aspas: Rui Costa, executivo de futebol — Foto: Eduardo Moura

Campeão paulista de 2021, da Copa do Brasil de 2023 e da Supercopa de 2024, Rui Costa foi o dirigente responsável por contratar James Rodríguez, Lucas e Oscar, três dos principais jogadores que vestiram a camisa do São Paulo nos últimos anos.

Entre decepções com o colombiano e glórias com o camisa 7, Rui Costa acompanhou de perto o drama de Oscar. O ex-meia parou de jogar futebol por causa de um problema cardíaco.
– O Oscar é um jogador de altíssimo nível, que vinha de uma liga de valores gigantescos e que foi convencido a voltar para o São Paulo com um contrato compatível com a carreira dele. E que estava a cada dia melhorando, a cada dia trazendo mais qualidade. Ele jogava demais.
– Mas diante do que ele passou, essa minha manifestação não tem nenhuma força. Porque ele não morreu por um milagre divino. Ele tem um mal súbito no dia em que tinha, sei lá, seis cardiologistas do Einstein dentro do CT e que imediatamente o socorreram.
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Em busca de nova oportunidade, Rui Costa contou, ao Abre Aspas, bastidores da reconstrução da Chapecoense depois do trágico acidente aéreo de 2016, da negociação com Sampaoli no Atlético-MG, da relação com Mario Celso Petraglia no Athletico e se defendeu de acusações no São Paulo.
Ficha técnica
- Nome completo: Rui Costa dos Santos
- Idade: 55 anos
- Clubes: Grêmio, Chapecoense, Athletico, Atlético-MG e São Paulo
- Títulos: Campeonato Catarinense (Chapecoense), Sul-Americana (Athletico), Paulista (São Paulo), Copa do Brasil (São Paulo) e Supercopa (São Paulo)
Rui Costa - Abre Aspas — Foto: Bruno Giufrida
Como está sua vida e como está aproveitando o tempo livre?
– Era muito importante para mim voltar para casa. Desde que saí daqui (de Porto Alegre), são mais de dez anos. A primeira vez que fiquei longe da família foi exatamente nessa minha longa passagem pelo São Paulo. Foi uma decisão difícil, que teve danos colaterais. Eu tenho certeza disso. Na relação com os filhos, com a família...
– Eu tenho gêmeos. Eu saí de casa quando eles estavam com 12 anos e volto com eles próximos de fazer 18 anos. E isso, por mais que todas as profissões tenham seus desafios, tem desdobramentos. Nesse período estou levando meus filhos no colégio, coisa que eu nunca fazia, entendendo o que eles gostam, estou próximo da minha companheira de mais de 30 anos, vivenciando essa idade tão importante dos meus pais, que estão vivos, com mais de 86 anos.
– Então, esse resgate da minha conexão com a família tem sido muito importante. Eu tenho desfrutado disso a cada dia. Claro que sempre pensando na volta, sempre motivado para voltar.
Você consegue curtir o futebol estando fora?
– Eu tenho visto os jogos de uma maneira diferente, mais relaxada, mas daquilo que também é importante eu tenho voltado a ver a modalidade esportiva com aquela paixão que eu via não especificamente por um clube, mas a paixão pelo esporte.
– Isso revigora também, isso te prepara para o retorno. Você começa a sair daquele ambiente em que a preocupação era o resultado da quarta-feira, o desempenho do jogador que foi contratado, se vai ter dinheiro ou não para pagar salário e passa a olhar o futebol como um todo. Tem sido muito positivo esse reencontro com o futebol de uma outra forma.
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Também tem um lado negativo?
– O futebol é apaixonante, e a paixão é cega. Ela te leva a buscar sempre a relação prazerosa, de conquista, de vitória, mas, associado a isso, eu vejo que o futebol também está muito influenciado por uma visão, que eu brinco muito, dopamínica.
– Aquele gesto de fazer assim no celular e de customizar o algoritmo para que ele te proporcione só sensações prazerosas, como se a vida fosse isso, de alguma maneira foi para o futebol. As pessoas hoje veem como se fosse uma modalidade esportiva em que perder é inviável, inaceitável e impossível.
– E a gente perde no futebol. E dependendo do clube onde você está, dependendo do projeto de gestão que você está, essa derrota é muito mais frequente do que a vitória. Então, eu penso que isso tem tornado o trabalho do executivo mais desafiador do que ele naturalmente já é.
Rui Costa em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Bruno Giufrida
Você falou sobre a pressão do torcedor, a necessidade de um resultado, ficar longe da família... Mas qual é o lado bom de ser executivo de futebol?
– Ser executivo de futebol é extraordinário. Eu me sinto privilegiado. Eu acessei o futebol de uma forma absolutamente inusual. Nunca joguei futebol, nunca pertenci ao mundo do futebol. E eu começo a minha carreira como executivo quando esses profissionais não tinham o perfil que tenho.
– Hoje existem muito mais executivos com o meu perfil porque a indústria pede. Mas quando eu começo, era um advogado com experiência de gestão, com uma passagem de quase dez anos num clube. Eu não caí de paraquedas. Nós temos alguns pioneiros nessa atividade profissional, mas lá em 2013, quando efetivamente eu começo, os clubes não tinham nos seus organogramas a figura do executivo como algo inegociável.
– Hoje é difícil encontrar um clube no Brasil, no mundo, que não tem essas figuras de um CEO, de um diretor executivo de futebol, de um diretor de marketing. Isso se tornou fundamental no processo. Então, estar aqui hoje na frente de vocês falando como executivo de futebol é um privilégio. Eu não quero deixar transparecer que aqui tem uma vítima. Todo trabalho que te dá protagonismo, boas remunerações, você tem que sofrer pressão.
– Agora, pressão é uma coisa, ameaça de morte é outra. Ser criticado veementemente como fui em algumas ocasiões é absolutamente razoável. Mas receber um vídeo em que há uma simulação de inteligência artificial e você está sendo assassinado, isso não me parece razoável. Atletas receberem foto dos filhos saindo do colégio com a placa do carro e dizendo: “Vai embora, senão pode acontecer alguma coisa”. Isso não é pressão. É inaceitável, não pode ser normal.
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Qual é o preço que isso te cobra?
– Eu aguento, mas a gente envelhece mais rápido. O que mais me incomoda, o que mais me entristece é quando isso chega na família. Então, por exemplo, eu recebi ligações do meu pai. Eu devo ter visto o meu pai chorar três vezes na minha vida.
– Quando nasceram os meus filhos, que são netos dele, em alguma situação de emoção de futebol. Mas, recentemente, eu via muito o meu pai chorar quando ele falava comigo e dizia: “Cara, vem para casa”, tipo, “sai daí”. E aí eu percebia que, se eu tinha força para aguentar aquilo, ele não tinha.
– E isso é difícil, porque ali você está vendo uma pessoa do teu afeto, do teu vínculo sanguíneo e emocional que não está mais suportando aquilo, mas o que eu dizia pra ele era: “Cara, se eu voltar, eu não sou digno de ser o teu filho, porque tu me ensinaste a suportar essas coisas”.
Rui Costa - Abre Aspas — Foto: Bruno Giufrida
Você demitiria o Crespo novamente hoje?
– Se eu tivesse os subsídios, os insumos e as percepções que eu tive com outras pessoas naquele momento, eu teria demitido. Porque as pessoas olham naturalmente o recorte da demissão, e quero deixar bem claro aqui, tenho muito respeito pelo Crespo.
– O Crespo várias vezes colocou de forma muito clara que não concordava com algumas coisas que estavam postas como dados de realidade. Ele queria contratações, achava que o time não podia evoluir, defendia muito essa dificuldade do São Paulo de ser protagonista e ter um ano difícil, e obviamente que toda vez que alguém projeta cenários adversos a chance de acertar é muito grande, sobretudo no futebol.
– Eu estou preparado para ouvir no final do ano: “Viu como o Crespo tinha razão, e o Rui não?”. Mas eu, como dirigente, tenho que ter comandantes que inspirem as pessoas. Que vai no Morumbi tem que acreditar que é possível. Esse é o clube onde eu estava. Essa é a noção de pertencimento.
– Eu entendo que o Crespo falava isso para proteger talvez até os jogadores. Mas a repetição constante de uma máxima de que não era possível e questões internas que a gente conversava de necessidade de contratação, porque em algum momento se prometeu ele contratações e eu não as prometi. Em algum momento, houve uma dissintonia e o trabalho na segunda etapa do Campeonato Brasileiro de 2025 e no Campeonato Paulista era questionável, do ponto de vista não da atitude profissional dele.
– Repito, é um ser humano, uma das melhores pessoas que eu convivi no futebol. Mas eu teria tomado a decisão, se os mesmos fatos tivessem acontecido, eu teria feito a mesma coisa. Talvez eu tivesse sido um pouco mais hábil na construção de algo que hoje seria muito favorável: deixar que as coisas acontecessem, para que os resultados me dessem legitimidade.
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Na sua passagem pelo São Paulo, o Oscar descobriu um problema de saúde muito grave. Ali era o fim da carreira de um jogador de uma maneira abrupta. Como que o São Paulo lidou com isso? E como foi o momento de descoberta do problema?
– O Oscar é um jogador de altíssimo nível que vinha de uma liga de valores gigantescos e que foi convencido a voltar para o São Paulo a partir de um contrato compatível com a carreira dele. E que estava a cada dia melhorando, a cada dia trazendo mais qualidade. Ele jogava demais.
– Mas diante do que ele passou, essa minha manifestação não tem nenhuma força. Porque ele não morreu por um milagre divino. Ele tem um mal súbito no dia em que tinha, sei lá, seis cardiologistas do (Hospital Albert) Einstein dentro do CT e que imediatamente o socorreram.
– Se ele estivesse em um dia normal de treino, tivesse tido um mal súbito que ele teve, que eu não quero entrar em detalhes aqui porque eu não sou médico, talvez ele tivesse falecido.
Também na sua reta final no São Paulo, outro episódio ficou marcado: a situação com o zagueiro Arboleda. Como foi lidar com o sumiço do jogador? Vocês brigaram?
– Primeiro que, quando eu cheguei, o Arboleda tinha um salário, por merecimento dele, totalmente incompatível com o que ele representava do ponto de vista técnico. Estou contando isso para entender como é a minha relação com o Arboleda. Eu devo ter feito duas renovações dele. Fora esses pequenos atrasos que eram quase inerentes à conduta dele, porque ele ia para o Equador e do Equador tinha que ir para não sei onde, ele sempre mostrou muito profissionalismo.
– Para mim, ele errou quando se afastou, ficou um tempo fora e aí claro sempre que podia mandava justificativas. Foi a primeira vez que eu vi isso na minha carreira. De um jogador relacionado para concentrar, não aparecer. E olha que eu trabalhei com jogadores difíceis.
– Mas, naquele momento, ainda mais com tudo que eu estava vivendo, não podia ser conivente. Não estou dizendo que se foi conivente depois, o processo de reintegração dele é um processo muito bem feito pelo Rafinha e pelo Dorival.
– Ele disse que estava com problemas emocionais. Eu tenho muito orgulho de como eu tratei essas questões humanas no São Paulo, porque sempre fiz prevalecer o aspecto humano. Foi assim com o Alisson, com outros jogadores que eu não vou falar porque não expuseram os problemas.
– Se o Arboleda tivesse procurado a mim ou o Rafinha, especialmente a mim, porque que eu era o cara que mais conversava com ele, e tivesse me dito que estava com um problema emocional, eu seria o primeiro a garantir que ficasse dois, três meses fora do clube.
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Por que você contratou o Roger Machado para o lugar do Crespo? Por ser seu amigo?
– Nunca faria isso, nunca fiz na minha carreira. Eu já até trabalhei com treinadores por quem eu não nutria uma relação que não fosse profissional. Depois do Grêmio, nunca mais tinha encontrado o Roger pessoalmente, a não ser em um restaurante nesse período de férias. Fui uma vez na casa do Roger quando fui contratá-lo para o Grêmio. Dessa vez nem isso eu fiz. O Roger nunca foi na minha casa, nunca fiz churrasco com o Roger.
– Mas eu tenho muito orgulho de dizer que trabalhei com o Roger, porque ele é um grande treinador. Ele é um grande caráter. Ele é um cara que, infelizmente, teve a passagem pelo São Paulo prejudicada por um gesto meu. E não dele. Ele herdou uma intolerância que na minha avaliação tem muito a ver com quem ele substituiu.
O São Paulo tentou algum outro treinador antes dele?
– Quando se entendeu que havia necessidade de troca, o Roger não foi o primeiro nome. E era natural que não fosse porque nós sabíamos que a rejeição seria muito grande. E o nome que se falava era do Filipe Luís (ex-Flamengo). Mas como falar com o Filipe Luís estando o Crespo empregado? Não era do nosso feitio. Então, uma vez que o Crespo não estava mais vinculado, nós fizemos uma conversa com o Filipe.
– O Filipe não estava em clube nenhum. E nós conversamos com ele para entender o que queria. Conversamos demoradamente, um cara extraordinário. E ele mostrou entusiasmo com a questão do São Paulo. Mas relatou que ele tinha vivido um momento difícil de saída do Flamengo.
– Eu fiquei encantado conversando com ele, estou revelando isso agora não como uma forma de desvalorizar a contratação do Roger, porque eu defendi a contratação do Roger. Mas era impossível ter resultados naquele ambiente que ele estava, como forma de isentá-lo dessa responsabilidade.
– Nós tínhamos um nome que talvez fosse muito mais palatável, muito mais revelador de ousadia e que me colocaria em um patamar de popularidade de ter contratado aquele que foi dispensado sendo multicampeão. Quando o Filipe, de forma muito clara, nos deixa a impressão de que levaria muito tempo para tomar a decisão, tempo que nós não tínhamos, vários nomes foram considerados.
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A gestão do ex-presidente Casares, com quem você trabalhou por mais tempo no São Paulo, acabou depois de uma denúncia de exploração clandestina de um camarote do Morumbis. Como isso impactou no dia a dia do clube?
– Bom, vou começar pelo fim. Impacta porque isso afeta o comando máximo do clube e termina te impactando, porque as pessoas que dirigiam o clube, que comandavam as estratégias, que determinavam tudo, saíram. Por motivos variados.
– Não vou emitir nenhum juízo de valor sobre o presidente, porque eles estão sendo investigados, então não cabe a mim fazer qualquer comentário, a não ser aquilo que eu já disse aqui, eu não vi, não participei e não colaborei para nenhum processo que fosse lesivo ao São Paulo.
– E todas as negociações que fiz, todas as atuações que sempre conduzi no São Paulo, estão todas documentadas dentro do sistema do São Paulo, porque eu sou advogado e eu sei o quanto isso é importante.
Antes de ser executivo você foi porteiro do Grêmio? É isso?
– É, eu digo isso com muito orgulho, porque as pessoas me olham assim com gel no cabelo, com esses casacos bem cortados. Eu sou neto de um peão de estância e de uma senhora que não sabia ler e escrever. Por isso que eu tenho muita dificuldade de aceitar essas máximas de que tal coisa não é possível, de que os desígnios são esses, que é assim e pronto.
– Se eu acreditasse nisso, eu não estava aqui sentado com vocês, falando da minha carreira como executivo de futebol. E quando eu chego no Grêmio, em 2000, eu queria conviver num clube por dentro, eu queria entender como é que era um clube, eu queria estar perto, eu tinha as minhas pretensões de ser alguma figura importante no clube.
Como você aceitou se tornar executivo de futebol?
– A minha chegada, meu ingresso na função passa muito por ter sido escolhido. E isso me orgulha muito. E eu sei que esse não é um processo normal. Portanto, eu tenho plena capacidade de reconhecer que eu tive o privilégio de estar naquele lugar.
– A minha mudança de vida passa a partir de uma escolha que não foi minha, foi de outro, mas de outro que tinha tanto conhecimento sobre essa indústria do futebol, sobre o que é o futebol, que no mínimo me convidou a refletir.
– Foram meses difíceis, até que o meu trabalho, a minha postura, a minha capacidade de até me colocar à frente dos processos quando eles eram, digamos, não tão populares, e essa é uma característica minha, assim, que eu tenho que melhorar, eu tenho uma tendência de tomar à frente, porque eu acredito nisso.
Nessa sua passagem, você teve a oportunidade de trabalhar com o Renato Gaúcho na primeira experiência dele como técnico. Como foi trabalhar com ele no Grêmio?
– Faz muito tempo que eu não falo com o Renato, mas isso não muda nada do que eu vou dizer aqui agora. É uma das pessoas que eu abri a porta do armário e estava ali, então imagina como foi para mim ter a experiência de estar com ele no vestiário. E esse é outro presente que o futebol me deu, porque ali eu conheci o Renato Portaluppi, não o Renato Gaúcho, não o personagem.
– Em 2010, ele pela primeira vez passa a ser o treinador do Grêmio, e eu estava lá, por uma coincidência, não era vice de futebol, era um diretor, a minha função era muito mais de coadjuvante, mas eu me lembro como se fosse hoje.
– Então, a primeira experiência com o Renato foi muito positiva. E agora lembrando a pergunta que foi feita aqui. Eu me lembro que uma derrota nós tivemos, acho que contra o Goiás, o Grêmio estava numa situação bem difícil na tabela. E nós éramos muito jovens. Eu e o Guerra éramos muito jovens, considerando o que se exige do futebol num clube grande, e eu fiquei muito abatido com a derrota.
– Eu chego a dar uma baixada na cabeça, o Renato me chama de uma forma muito generosa também, e diz: “Olha, vocês aqui são o esteio do vestiário, se vocês forem os primeiros a baixar a cabeça, os primeiros a sentirem a derrota, não sobra nada, a gente precisa estar sempre firme”.
– E aquilo eu nunca esqueci, de como o atleta, de como o ambiente do vestiário olha para o dirigente no momento difícil. É como tu reage, é o teu gesto no momento difícil que vai fazer com que esses vínculos se tornem sólidos. E vínculo sólido te leva a conquistas.
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Em 2013, houve a mudança de comando com a saída de Luxemburgo. No fim de 2012, a torcida praticamente renovou com o Luxemburgo ao pedir a permanência dele contra o São Paulo. Como foi a construção, tanto da renovação quanto da saída do Luxemburgo?
– Bom, imagina, eu comecei minha carreira como executivo de futebol com o Luxemburgo. Então, assim, foi bem impactante, foi um aprendizado bem importante.
– E disse a ele quando ele foi embora: “Olha, eu aprendi muito convivendo contigo”. Ele já era indiscutivelmente um personagem de futebol, um grande treinador. E a permanência dele no Grêmio naquele ano, no início daquele ano, foi praticamente natural.
– Ele era um treinador acolhido pela torcida, que tinha feito um belo trabalho no ano anterior. E a saída dele é em decorrência de um desgaste que eu entendia que era natural.
Luxemburgo em ação no Grêmio — Foto: Lucas Uebel/Grêmio
– Essa foi a primeira grande demissão, digamos, que eu fiz. O primeiro grande enfrentamento na condição de um profissional que iniciava a sua carreira ter que fazer uma desconstrução de relação, que não é simples, e eu a fiz, eu não fiz com outra pessoa, eu não pedi ajuda para ninguém, eu a fiz sozinho, porque era isso que ele merecia, era essa dignidade que eu tinha que dar a ele, e ele foi super correto, e aí vem o Renato, numa outra condição.
E como é demitir o Luxemburgo? Como ele reage?
– Toda demissão é difícil, porque o futebol te coloca numa relação muito próxima. Quando você trabalha num ambiente de futebol, você tem sábado, domingo, segunda, feriado junto com aquela pessoa. Você viaja junto, você concentra junto. Dependendo do treinador, você quase mora no mesmo lugar que o cara. Porque eu trabalhei com treinadores que ficaram 35 dias no CT junto comigo.
– E quando esse vínculo te coloca numa posição em que a pessoa que está sendo demitida é muito maior que tu no futebol, é muito mais difícil. Ou quando essa pessoa que tu estás demitindo é teu ídolo, é muito mais difícil.
– Não existe forma agradável. Faz parte da atribuição do executivo, ele tem que dar a boa e a má notícia, tem que dizer para os jogadores que tem um prêmio para os jogos e ele tem que dizer para os jogadores que o salário vai atrasar, é o executivo que tem que fazer isso.
Você também teve que demitir o Rogério Ceni do São Paulo. Como foi?
– Esses dias eu fui questionado e acho que é um questionamento cada vez mais justo. O tempo vai levar, vai eliminar essa pergunta, talvez eu não tenha que falar mais sobre isso, mas ainda é muito oportuno perguntar sobre a demissão do Crespo.
– E lá pelas tantas eu disse, e não foi uma coisa planejada, foi uma coisa do sentimento, eu sou um cara que tem muito essa capacidade de transmitir o que eu penso, o que eu sinto de forma autêntica, e eu acredito nisso. A demissão mais difícil que eu fiz em São Paulo não foi do Crespo, foi do Rogério Ceni. Porque eu faço uma demissão do Rogério a uma da manhã, dentro do vestiário, só eu e ele.
– Ele é um cara brilhante, é um cara inteligente, ele percebeu que alguma coisa estava errada. E ele tinha todos os motivos para me defenestrar. Pela história que tem no clube, pela grandeza que ele tem, por eu estar no clube há três anos.
Rogério Ceni, com camisa de viagem, em Fortaleza x São Paulo — Foto: Rubens Chiri / saopaulofc.net
– Ele é um cara difícil, todo mundo sabe. É talvez um dos treinadores mais competentes com quem eu já trabalhei. E eu pensava, como é que eu vou fazer isso? Como é que eu vou chamar a maior legenda da história desse clube?
– Ele me chama e diz assim: “Eu quero te dar um presente, eu vou te dar a última camisa que eu vesti trabalhando no São Paulo”. E eu tenho essa camisa guardada até hoje. Então, isso para mim tem um significado muito maior do que outras coisas. Porque ele é o Rogério Ceni no São Paulo.
– Eu brinco, é como se eu tivesse tido, em algum momento, a oportunidade de demitir o Diego Armando Maradona no Napoli. Isso é inconcebível, isso é impensável, isso é pouco razoável.
Como foi o convite para trabalhar na reconstrução da Chapecoense, depois da queda do avião em 2016? Quem te ligou? Como foi o convite? O que você lembra desses detalhes?
– O impacto dessa ligação fica mais bem ilustrado se eu ampliar um pouco o tempo, ampliar essa amostragem. Falar um pouquinho do que aconteceu antes dessa ligação. Eu vinha de seis meses em casa. Tinha saído do Grêmio e havia uma incerteza muito grande na minha cabeça, se eu seria o executivo de futebol ou se eu terminaria a minha aventura como executivo de futebol.
– E naquela madrugada, eu tinha um grupo de WhatsApp de amigos que jogavam futebol e tudo. E eu fico sabendo do acidente, eu estava dormindo já. E começam a entrar mensagens. Eu me lembro que no dia seguinte, todos nós impactados, eu trabalhei com alguns profissionais que faleceram, e me lembro de estar sentado no sofá e dizer para a Cristina, a Cristina é minha companheira há mais de 30 anos, é a mãe dos meus filhos.
– Enfim, eu disse que, se eu tivesse uma vida financeira sólida, eu me colocaria à disposição da Chapecoense para trabalhar de graça, de graça não, mas simbolicamente, porque eu imaginava que eles teriam muitas dificuldades.
– Passa o tempo, o Grêmio é campeão da Copa do Brasil. E no dia seguinte à conquista da Copa do Brasil, ou uns dias depois, não lembro bem a data, eu recebo uma ligação de uma pessoa influente lá, do meu círculo de amizades.
– E aí me passa o telefone e era o presidente Maninho dizendo: “Olha, gostaria de fazer um desafio aqui, você pode estar aqui amanhã às 8h30 da manhã? A gente vai ter uma reunião e a gente gostaria de te contratar para ser o executivo da Chapecoense.”
As pessoas em Chapecó estavam sofrendo muito naquele momento. Como foi o seu trabalho lá? Como foi o primeiro dia de trabalho como executivo de futebol da Chapecoense?
– Eu chego no primeiro dia com tudo o que eu tinha aprendido, com todo o manual na cabeça, né? Inclusive chego de blazer, de camisa social, e logo percebi que aquilo não tinha nada a ver com o que precisavam de mim. Eu tinha que vestir a camisa da Chapecoense.
– Então, a primeira vez que eu passo a usar a camisa do clube, não uma camisa de jogo, mas uma camisa com identificação, foi em Chapecó, porque eu percebi que rapidamente eles tinham que me ver como alguém deles, porque eu era o forasteiro. E era assim que eu era chamado, inclusive. E como é que você faz isso rapidamente?
– Vivendo a cidade na sua plenitude, entendendo a cultura, entendendo o luto que aquelas pessoas sentiram, entendendo que ali estava muito mais do que um trabalho de contratar X jogadores, botar em campo. Era reconstrução de muitas coisas e o primeiro dia foi exatamente isso.
Rui Costa trabalhou na Chapecoense depois do trágico acidente aéreo — Foto: Sirli Freitas/Chapecoense
E como foi equilibrar tudo isso, contratar 24 jogadores, roupeiro, massagista, enfim... Para montar a reconstrução da Chape?
– A gente tinha que buscar muito perfil de jogadores que rapidamente aceitassem esse desafio entendendo que ele era muito maior do que eles imaginavam, então tinha que ter profissionais com força mental, olhar muito a identificação para fazer com que o torcedor da Chapecoense se identificasse com aquele grupo, que era uma legião estrangeira.
– E como fazer isso? Reproduzindo ou replicando através de treinamentos e da percepção e sensibilidade daqueles que os treinaram. Eu destacaria dois treinadores dessa reconstrução que é o Mancini e o Gilson Kleina. Eles foram as pilastras desse processo de fazer a Chapecoense ser reconstruída do ponto de vista tático, também. Então, nós sabíamos que a Chapecoense jogava com força e velocidade.
Você tentou levar o Kaká para a Chapecoense?
– Eu dizia para o presidente que tínhamos que trazer um grande jogador, porque a Chapecoense ia ser o clube mais visto no mundo. Nós fizemos 80 jogos naquela temporada, demos quatro voltas ao mundo em quilometragem. Por isso que a gente tinha que ter um elenco de 47 jogadores, 48 jogadores, para suportar isso. E aí vinha uma ideia de trazer o Kaká.
Kaká no tapete vermelho da Copa do Mundo de Clubes — Foto: ANGELA WEISS / AFP
– Ele já estava, se não me engano, na MLS. E a ideia seria fazer uma promoção da MLS nas camisas da Chapecoense, era uma ideia bastante fora da curva e o Kaká seria esse centro do time. Fomos muito bem recebidos pelo estafe do Kaká, eles nos explicaram que ele tinha um contrato que estava diretamente relacionado com a construção do novo estádio, enfim, mas a intenção era válida.
Depois, você vai para o Atlético-MG... Como foi a negociação com o Sampaoli?
– Eu participei de uma reunião com ele. E acho que tinha um perfil interessante. Foi uma reunião bem difícil, bem tensa. Teria bastante coisa para contar depois que a câmera fosse desligada. Mas, assim, ele tem coisas que são muito características. É um cara que gosta de contratar muitos jogadores, de montar times que deem a ele muitas alternativas.
– E naquele momento, eu, pelo menos na condição de executivo do Atlético, não via nenhum sentido de prometer a ele, porque eu sempre fui um cara que nunca prometi aquilo que eu não posso cumprir, de prometer a ele grandes contratações quando os salários estavam atrasados. Mas faltou detalhe para ele ser o técnico do Atlético.
O Sampaoli pediu muitos reforços?
– É o que ele sempre faz, ele tem essa característica de entender que precisa ganhar e para ganhar tem que ter bons jogadores. Ele está absolutamente correto. Eu também gostaria de receber uma ligação do Florentino Pérez dizendo: “Rui, você quer fazer uma experiência aqui no Real Madrid?”. Deve ser muito legal trabalhar no Real Madrid e ter a possibilidade de contratar o melhor jogador do mundo com duas ligações.
E a experiência no Athletico, que ainda era Atlético Paranaense?
– Foi uma experiência muito rica para mim, porque, como eu te disse, eu sempre sou um cara que procuro aprender onde eu estou e isso é muito relevante para um profissional que quer se atualizar o tempo todo.
– O futebol te exige hoje constante aprimoramento intelectual, pessoal, mental, acadêmico, enfim... e o Athletico é indiscutivelmente o clube mais empresarial do Brasil, sem ser uma SAF.
– Foi um período também menor do que eu imaginava, mas que ali eu tenho convicção que entregamos tudo. Quando eu cheguei, o Athletico estava flertando com uma zona desconfortável no campeonato, com um técnico interino, que era o Tiago (Nunes), com o Paulo André, que jogava e fazia um trabalho na formação, é um cara extraordinário.
Rui Costa durante trabalho no Athletico — Foto: Monique Silva
– O Paulo André foi muito importante para a minha chegada lá. E nós fomos campeões. O Athletico termina a temporada em uma posição muito confortável no Campeonato Brasileiro. Fazemos a janela em janeiro e, para a minha surpresa, depois de um clássico no campeonato regional, onde nós jogamos com um time alternativo, não sei se a gente perde o jogo de 1 a 0, um empate, não lembro agora, eu recebo um comunicado que tinha terminado.
O Athletico é um clube empresarial, mesmo sem ser uma SAF, e tem uma figura muito forte, que é o Petraglia. Muitas vezes ele nem é o presidente, mas é a cara do Athletico. Como é trabalhar com ele?
– Como gestor, é um cara que transformou o clube, e isso é um dado de realidade que eu jamais vou sonegar, porque eu não seria o homem que sou se eu deixasse que outras coisas contaminassem essa observação de que ele transformou o clube.
– É uma pessoa difícil de trabalhar, porque ele tem uma visão muito clara do que ele quer fazer, mas como eu digo, eu acho que reduzir a minha passagem ao Athletico a essa relação, seria diminuir o que ela teve de impacto positivo na minha carreira. Eu tive relações com muitas pessoas que foram importantes naquelas conquistas.
– Conquistei um título importante no clube (a Copa Sul-Americana). Eu tenho certeza de que se nós tivéssemos continuado eu faria parte desse crescimento. O Athletico hoje é um clube que contrata muitos estrangeiros. Nós começamos a defender essas ideias de contratação.
– Agora, claro, tem um estilo de comando que você pode concordar, pode discordar, mas é um estilo que levou o clube a chegar onde está e, nesse aspecto, como gestor, ele transformou o clube. Mas o resto não vale a pena a gente falar.
Mas tua relação com ele não é boa?
– Relação nenhuma. Relação profissional.
Mas e se você encontra ele hoje?
– Nenhum problema. De minha parte, nenhum problema. Eu, por onde passei, fiz muitos amigos. E eu tenho muita alegria disso. Mas a gente tem desafetos. Não tem como. Só a mediocridade te permite não ter nenhum desafeto. E eu não pretendo ser medíocre.
– Então assim, o futebol te coloca em situações que tem que sentar na frente de uma pessoa muito maior que você, de um profissional com quem você desenvolveu amizade, cumplicidade, lealdade, e dizer: “Olha, cara, eu estou te mandando embora, eu preciso te mandar embora”. Isso é duro, isso é difícil.
– Isso, às vezes, gera rupturas de relacionamento. E eu tenho a sorte de ter feito, e eu não digo isso com nenhum orgulho, muitas demissões ao longo da minha carreira, porque também fui demitido. E tenho relações até de afeto com pessoas que me demitiram e tenho pessoas que eu demiti que são meus amigos até hoje.
– Então, eu acho que a relação tem que ser essa, separar o profissional. Eu tive uma relação profissional no Athletico, com quem dirige o Athletico, e fiz sempre o meu melhor. Entreguei profissionalmente. E saí por uma decisão que não cabia a mim, porque o cargo não é meu. O cargo é de quem comanda o clube. E tudo bem.
O trabalho no São Paulo é o que mais te transformou? Que mais teve efeitos na tua vida?
– É uma marca importante da minha carreira. E ninguém fica seis anos num clube, cinco anos e cinco meses, por ser um cara simpático, por ser um cara que fale bem, que tenha boa relação com a imprensa.
– Nem foi isso. Mas foi porque nós conseguimos identificar problemas, nós conseguimos interferir nos problemas, ter ciclos de intervenção, ter tempo para trabalhar. E deixar um legado que eu acredito que, com todas as dificuldades que tivemos, e o clube tem ainda, foi caracterizado por conquistas inéditas na história do clube, por vendas importantes, por protagonismo nesse período todo.
– O São Paulo foi protagonista, talvez nos últimos dois anos não, mas o São Paulo foi nesse período todo protagonista. Libertadores, Sul-Americana, finais de campeonatos importantes, formação de atletas, ou seja, eu consegui manter e potencializar com os meus pares.
Na sua saída, um dos membros da comissão técnica do Crespo fez um post sem citar o seu nome, mas usando o termo Judas. Como que isso te atingiu? Isso te impactou de alguma maneira?
– Eu não falaria sobre esse assunto, porque eu acho que ao falar sobre ele eu dou relevância para quem, para mim, não tem nenhuma relevância. Mas acho que a tua pergunta é muito importante para que a gente faça uma outra avaliação. Eu demiti o Crespo às 8h30 da manhã, no CT da Barra Funda, o chamei pessoalmente, disse as motivações pelas quais nós tínhamos que encerrar o vínculo.
– Eu o cumprimentei, perguntei se ele precisava de alguma coisa, e das 8h até 21h30 estive no CT. Essa pessoa podia ter ido na minha sala e dizer isso na minha cara. E eu o respeitaria se ele fizesse isso, certo? Eu argumentaria com ele e o respeitaria.
– Eu não sou especialista em escrituras, mas ninguém gosta de ser chamado de Judas. Eu posso ter muitos defeitos, mas eu não sou traidor nem desleal. Mas o que nós temos que identificar aqui é o momento que ele faz isso. Então, ele deixa de falar isso como um homem deveria fazer. Que seria falar na minha frente, fechar a porta e falar na minha frente.
– O fato é que quando ele faz essa postagem quando eu sou demitido, no minuto seguinte eu começo a receber ameaças de morte no meu telefone. E aí está o gesto de covardia. Ele é duplamente covarde. Ele é covarde porque ele não me fala isso na minha frente e não me permite conhecer a sua insatisfação e sua indignação e argumentar com ele de que ele está errado na avaliação que faz sobre a minha pessoa, embora o que ele acha de mim é absolutamente irrelevante.
– E sabendo que eu estava fragilizado, não do ponto de vista emocional e físico, porque graças a Deus eu tenho muita saúde e sou muito forte. Mas sabendo o que eu estava acontecendo e fazer isso, para mim foi um gesto de covardia dupla. Mas a gente lamenta. Um dia a gente se encontra por aí, e aí eu vou ter essa chance de perguntar para ele se ele continua achando que eu sou Judas.
E o que você guarda de melhor do São Paulo?
– Cara, muita coisa legal. Eu me lembro que muitas vezes eu enfrentei o São Paulo como adversário, e a gente entrava naquele estádio e era o Coliseu. Algumas vezes eu brincava com eles lá que a gente já perdia o jogo quando entrava no corredor e via foto do Careca, do Raí, do Muricy. Enfim, um clube que celebrava tantos títulos.
– A melhor lembrança que eu tenho é que eu vi a torcida celebrando títulos. Eu tive a oportunidade de entrar no campo e abraçar o Muricy comemorando o título da Copa do Brasil. De ter os jogadores felizes, de ver a torcida cantando. Prefiro lembrar disso do que a torcida me xingando.
Você falou da Copa do Brasil e tem três contratações que foram muito determinantes naquele momento: o Dorival, o Lucas e o James. O que você lembra de especial delas?
– Eu tenho uma certa suspeição para falar do Dorival, porque o Dorival a gente se fala até hoje. Era um treinador que eu admirava e hoje virou um amigo. Não só ele, a comissão técnica. O Lucas (Silvestre) vai ser um grande treinador. É muito injusto que se pense que que o Dorival não treina, que é o Lucas que treina.
– Não, o Lucas (filho) chama o Dorival (pai) de professor. O respeito que o Lucas tem pelo Dorival é o respeito profissional. E as tomadas de decisão são todas do Dorival. Acho que é importante aproveitar para dizer isso, porque teve um momento que ele passa pela Seleção e se questionou. O Dorival é um grande treinador.
Ouvia-se muito que o James era um cara muito peculiar. No sentido de ser um cara que necessitava de carinho, não no sentido literal da palavra, mas que precisava ser a estrela, porque ele de fato conviveu e convive com esse status no país dele até hoje. Notou-se isso internamente no São Paulo?
– Eu falei com ele várias vezes na minha sala sobre isso. Nada sobre futebol. Sobre o comportamento dele, sobre como ele estava se sentindo, enfim. Eu não sou psicólogo, nem posso exercer a profissão, não sou psiquiatra, mas o futebol também te dá essa capacidade de decifrar um pouco as pessoas, desde que você tenha esse tempo de ouvi-las, e não de querer doutriná-las.
– A gente precisa ouvir mais no futebol. E, ouvindo o James, eu percebi que ele realmente tinha essa frustração, porque ele achava que, no São Paulo, ele seria o camisa 10, ele teria a atenção e o contexto ambiental que ele tem na seleção colombiana, onde o time joga em função dele.
– O São Paulo não poderia jogar em função do James. O São Paulo não joga em função de nenhum jogador. Tem clubes que não podem fazer isso. E a partir daí, teve questões físicas, ele teve lesão, ele se lesiona em um treino dando um carrinho, depois ele teve questões musculares.
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Mas você acha que faltou ao São Paulo dar tempo a ele ou a ele entender?
– Acho que faltou tudo. Faltou o São Paulo dar esse tempo e faltou ele querer usufruir desse tempo. Veja que depois que sai do São Paulo ele tem passado por vários clubes, ele não se dá mais esse tempo de buscar. E isso é uma coisa que a gente só perceberia convivendo com ele.
– Talvez ele não queira mais essa cota de adaptação que leva ao sacrifício para poder ficar mais tempo em um clube. E aí a gente só tinha como descobrir isso convivendo com ele. Mas profissional não tenho nada a falar mal dele.
Por outro lado, tem a questão do Lucas Moura, que conviveu com muitos problemas físicos, mas é um expoente daquele título e emblema do São Paulo recente. Como foi a negociação com ele e, também, o convívio com um cara desse tamanho?
– O Lucas teve muitas propostas financeiras infinitamente maiores que a do São Paulo. Muitas. Inclusive, eu tive acesso a algumas que eram assim, para garantir, ele já está garantido, mas para garantir mais ainda (a vida financeira dele). Mas o Lucas sempre foi, e isso eu acho que é muito legal, absolutamente identificado com o São Paulo. Com as coisas do São Paulo, com a torcida, os valores, foi formado em Cotia.
– Quando nós negociamos o contrato, ele ficou mais preocupado em saber se ele teria um camarote para levar os filhos, a família toda para ver os jogos do que alguns outros detalhes que ele deixou para os seus empresários. A contratação do Lucas, claro que era uma contratação profissional, tem dinheiro envolvido, tem quantias importantes, mas ele sempre demonstrou uma obsessão por voltar ao São Paulo.
– Quando nós negociamos com ele, teve proposta de clubes muito fortes do Brasil em termos econômicos e ele não cogitava, de verdade, vestir outra camisa que fosse a do São Paulo. Ele foi não só importante dentro do campo, o Lucas é um cara que chega muito cedo, o Lucas é um cara que transita muito com os jovens atletas. Ele é um ídolo da torcida, mas ele é um ídolo máximo daqueles atletas que são formados em Cotia.
A gente falou de negociações para contratar alguns jogadores, mas você também negociou saídas. Teve o Beraldo, que foi bem vendido para o PSG, mas algumas outras deixaram no torcedor a impressão de que foram vendas ruins. Henrique, William Gomes, Matheus Alves, Lucas Ferreira...
– É uma pergunta muito legal e dá várias perspectivas de um mesmo problema. Vou tentar ser o mais objetivo possível. A minha experiência me levou a acreditar que a melhor maneira de vender um jogador jovem é fazendo duas coisas: retendo esse talento no clube e sendo campeão com ele jogando.
– O São Paulo, estou falando um dado de realidade que é público, porque está nos balanços, tem uma lógica de balanço que todo déficit é jogado para o futebol. No sentido de que o futebol tem que vender aquilo que é o valor necessário para fechar o balanço.
– Isso é histórico no clube, pelo menos é o que as pessoas me diziam. Então, não tem uma lógica de mercado a tal ponto que muitas temporadas, muitos orçamentos, nós tínhamos que vender mais do que o Flamengo, em termos de números, o que não tem nenhum sentido. Por que o Flamengo valoriza os seus ativos? Porque os retém, porque é vencedor e dá carimbo de conquistas.
– O São Paulo vende o Beraldo por um valor importante, poderia ter sido até mais, porque nós tínhamos outras propostas, mas aí o negócio já estava encaminhado.
Esse mesmo elenco do São Paulo tem um jogador que sabemos que você tem um grande orgulho de ter mantido, o Marcos Antônio. Como foi resistir ao assédio do Flamengo nesse caso?
– Acho que esse é um gesto de grandeza do São Paulo e daqueles que entenderam a grandeza do São Paulo. Talvez esse episódio seja mais um que eu não pude falar para o torcedor o que fiz.
– Como é que o Marcos Antônio chega no São Paulo? Ele vem do Paok, emprestado. Tivemos que fazer todo um convencimento, porque ele queria ficar na Europa. Quando chega, ele é pequenininho, então há uma crítica. E ele começa a se transformar em um jogador importante e nós não tínhamos como contratá-lo.
– Não tinha orçamento para contratá-lo. E aí fizemos toda uma ginástica de desgaste com a Lazio, de prorrogação de empréstimo, de compra depois, não disfarçada, porque tudo é claro na relação de compliance, mas criamos os meios para contratá-lo quando ele já era um jogador importante.
– E eis que surgiu o Flamengo e mais que o Flamengo, o Boto, que tinha uma relação com ele na época do Shakhtar. Eu sou um cara que não fui criado para ter esses orgulhos, mas esse é um momento de orgulho profissional porque eu sabia que era grande oportunidade de mostrar quem o executivo do São Paulo realmente poderia ser.
O seu nome é muito bem-quisto pelo Grêmio, pelos torcedores. Nós tínhamos a informação que o Grêmio te queria no fim de 2025. Em algum momento você pensa em voltar ao Grêmio, que foi o início, mas de ter um trabalho, quem sabe, mais longo também no clube?
– Qualquer executivo que se sentar nessa cadeira aqui e for perguntado se gostaria de trabalhar no Grêmio, vai te responder que sim. Porque o Grêmio é um clube gigante. Essa pergunta para mim tem mais peso ainda.
– Mas hoje o Grêmio tem um executivo (Paulo Pelaipe) experiente, competente, vencedor, que está desenvolvendo um trabalho com a nova diretoria, tenho muito respeito pela tua pergunta.
– Tu vais entender que nesse momento uma palavra minha de apreço por voltar ao Grêmio não seria um ato condizente com o que eu acredito, com o que eu faço. O Grêmio tem um executivo, repito, competente, experiente, vencedor, que está fazendo um trabalho de acordo com as diretrizes de uma presidência que está chegando e um trabalho que está começando. Acho que é o que me cabe dizer.
– Um dia, talvez, sim, eu acho que se pode retomar uma história e tudo. Mas dizer isso agora e afirmar que eu gostaria de voltar agora, eu penso que não seria condizente com aquilo que pratico.


