Belo Horizonte – Foi ao som de “Loucura de uma paixão, eu sei” que Júlia Rocha dividiu o palco com Ivete Sangalo no Mineirão, na Pampulha, em Belo Horizonte. A cena emocionou quem acompanhava o show e, depois, ganhou as redes sociais. Pouco mais de uma semana depois, a sambista belo-horizontina conversou com o Metrópoles e contou os bastidores do dia especial.“Eu fiquei imensamente feliz. Tentei agradecê-la mais de uma vez, mas acho que talvez daqui a alguns anos eu consiga ter a dimensão do que foi aquele dia. E agradecer a ela adequadamente, porque acho que, com palavras, não vai ser suficiente, não”, contou. Leia também Metrópoles MusicMúsica mineira movimenta Estilo Brasil com Flávio Venturini e Samuel Rosa Minas GeraisCineBH terá filmes na praça, “Central do Brasil” ao vivo e estreia mineira Minas GeraisPetista mineira Ana Elisa ganha o apoio de Caetano Veloso O encontro aconteceu durante o Ivete Clareou, show em homenagem à sambista mineira Clara Nunes, em 19 de setembro, e contou com um vídeo de Júlia que chegou até Ivete, um cabelo que se destacou na multidão e a torcida dos amigos, que fizeram coro: “Chama a Júlia!”.Júlia Rocha é um dos nomes da nova geração do samba mineiro. Médica de formação, a cantora e compositora deixou a profissão para se dedicar à música, paixão que vem desde a infância. Ela participou do The Voice Brasil e, há quatro anos, comanda o “Samba da Ju”, roda realizada às sextas-feiras e que atualmente acontece no Três Pretos, no bairro Jardim Montanhês, na região Noroeste da capital mineira, uma das maiores casas de samba de Minas Gerais.O começoA paixão pela música e por Ivete começou cedo. Júlia Maria Simão da Rocha, hoje com 43 anos, nasceu em Belo Horizonte e conta que, aos 10, tinha o hábito de ouvir os artistas de quem gostava e se imaginar cantando e dançando no palco. E Ivete estava lá.“Isso era uma coisa que eu tinha meio como a minha rotina de brincadeiras. E isso acabou tomando corpo ao longo da adolescência. A Ivete é uma artista que eu admiro muito, desde sempre, desde o começo da carreira dela na Banda Eva”, disse.Júlia conta que começou a cantar profissionalmente aos 14 anos e, depois, seguiu se apresentando com voz e violão em espaços de BH, como bares, restaurantes e festas. “E, desde então, não parei. Cantei por algum tempo em cerimônias de casamento, que era o que as circunstâncias me permitiam. Eu estudava medicina em Pouso Alegre (Sul de Minas)”, lembrou.Durante a faculdade, conciliou a medicina com apresentações em casamentos. Depois de formada, deixou as cerimônias e passou a investir mais na carreira musical. Ver esse post no Instagram Um post compartilhado por JÚLIA ROCHA (@cantorajuliarocha)Por algum tempo, Júlia acreditou que conseguia dedicar à música o tempo necessário. “Depois, o samba foi tomando a maior parte da minha vida e me exigindo uma dedicação que não era possível conciliar com o exercício da medicina”, disse.Foi então que ela começou a se preparar para deixar definitivamente a profissão. Em junho de 2025, conseguiu abandonar a medicina para viver exclusivamente da música. “Apesar de ser uma rotina que eu amava muito, eu sempre gostei muito de ser médica, mas percebi que não seria possível conciliar”, contou.Da roda de samba ao palco com IveteAntes de seguir para o show de Ivete Sangalo, no Mineirão, no bairro São Luiz, Júlia ainda fez uma participação no Samba do Alto, no Caiçara. Já no estádio, ela, o companheiro e o figurinista decidiram ficar mais perto do palco.Em determinado momento do show, veio a surpresa: Ivete a reconheceu após ter visto um vídeo seu, perguntou se ela era cantora e pediu que escolhesse uma música. Júlia, incrédula, não acreditou que realmente seria chamada ao palco.“Ela fez um primeiro contato, me pediu para escolher uma música e aí eu falei: ‘Mas não é possível’. Sabe quando você fala assim: ‘Gente, isso é muito para eu acreditar’? Sabe quando você está numa premiação e alguém fala: ‘O primeiro lugar vai para fulano’, e depois fala: ‘Gente, me desculpem, eu errei aqui. O primeiro lugar não é do fulano, é do sicrano’? Eu fiquei com essa sensação”, brincou.E, no meio de tanta gente, Júlia tem um palpite sobre o que ajudou Ivete a reconhecê-la: o cabelo. “Ela viu, acho que pelo meu cabelo, porque meu cabelo estava bem grandão. E aí ela me reconheceu: ‘Eu vi você, eu vi você cantando hoje, eu vi um vídeo seu’”.Cerca de uma hora se passou e Júlia, que ainda não tinha almoçado, saiu para comer uma batata. Foi justamente nesse momento que Ivete voltou a procurá-la. O amigo foi correndo avisar: “A Ivete perguntou de você. Ela perguntou: ‘Cadê a cantora? Cadê a cantora?’”.“Chama Júlia”: o pedido deu certoJúlia achou que havia perdido a chance, mas, quando voltou para perto do palco, Pedro insistiu que eles precisavam dar um jeito de chamar a atenção de Ivete. Os amigos, então, combinaram que esperariam um intervalo entre as músicas para gritar. Assim que surgiu um momento de silêncio, o grupo começou: “Chama Júlia, chama Júlia”. Ver esse post no Instagram Um post compartilhado por JÚLIA ROCHA (@cantorajuliarocha)E deu certo! Ela contou que, apesar da emoção, se sentiu surpreendentemente tranquila ao subir ao palco. Júlia já havia pensado no que cantaria caso Ivete realmente a chamasse: “Loucura de uma Paixão”, no mesmo tom usado pela baiana.Enquanto a equipe colocava o fone e preparava os equipamentos, Ivete a abraçou e perguntou qual música ela queria cantar. “Eu tava me sentindo tão preparada para aquele momento, uma coisa que me surpreendeu. Eu realmente tava tranquila, em nenhum momento fiquei nervosa”, contou.Quando o vídeo chegou a IveteTudo começou, na verdade, um ano antes. Em novembro de 2025, quando o Ivete Clareou passou por BH, Júlia se apresentou com amigas em uma roda de samba montada por um patrocinador antes do show de Ivete. Naquele dia, o figurinista fez uma previsão: “Ó, ano que vem você vai estar lá em cima do palco com ela”. Júlia riu e pediu que ele previsse também uma vitória na Mega-Sena. “E, no final das contas, ele acertou em cheio”, brincou.A possibilidade parecia distante, mas ganhou uma ajudinha nos bastidores. Dias antes do show deste ano, Júlia conversou com sua fonoaudióloga, que também trabalha com Ivete. Foi quando soube que ela já havia falado sobre seu trabalho com a baiana. “Nossa, eu falei tanto de você para a Ivete, eu queria tanto que você participasse do show dela”, contou Júlia, ao reproduzir a conversa.A fonoaudióloga também havia mostrado vídeos de Júlia cantando para Ivete. “Ela falou: ‘Mostrei uns vídeos seus para ela, ela gostou muito e tal. Vou falar com ela, vou insistir’”, relembrou. Júlia conta que as duas chegaram a rir da possibilidade, diante da dificuldade de encaixar uma participação não prevista em uma produção daquele tamanho. Mas a ajuda deu resultado, que emocionou muita gente.Depois de Ivete, novos rostos no “Samba da Ju”Júlia conta que a repercussão após cantar com Ivete foi imediata. Segundo ela, o vídeo do encontro chegou a quase 300 mil visualizações e seu perfil ganhou mais de 10 mil seguidores.“A repercussão de tudo foi muito maluca. Muitas pessoas me seguindo, o vídeo teve quase 300 mil acessos. Mais de 10 mil pessoas começaram a seguir o meu perfil”, disse.Segundo Júlia, a apresentação levou um novo público ao “Samba da Ju”, que acontece às sextas-feiras, no Três Pretos, em BH. Algumas pessoas contaram que decidiram conhecer o evento depois de assistir aos vídeos das duas juntas.Para ela, a repercussão foi ainda maior pela dimensão nacional da carreira de Ivete e pela imagem que a cantora construiu ao longo dos anos.“Ela é, desde sempre, uma pessoa com uma postura muito correta, muito ética. Então, além da visibilidade e de ser famosa, ela tem uma imagem de uma pessoa muito correta, de muita credibilidade. E isso faz com que esse gesto generoso dela em relação à carreira de uma outra cantora, que ela nunca tinha visto na vida, seja muito mais forte, né? Gere muito mais impacto, porque as pessoas confiam nas coisas que ela fala”.






