A cannabis medicinal ainda não tem evidências científicas suficientes para ser recomendada no tratamento da insônia. Uma revisão publicada pela Cochrane nesta terça (13/10) analisou nove estudos com 537 adultos e concluiu que os dados disponíveis não permitem afirmar com segurança que os produtos à base da planta melhorem o sono ou o funcionamento durante o dia.Os pesquisadores observaram pouca ou nenhuma melhora clinicamente significativa na qualidade do sono, na satisfação com o descanso e no tempo total dormido em comparação com um placebo. Os participantes que usaram cannabis medicinal também tiveram maior probabilidade de apresentar efeitos adversos leves, como boca seca e tontura.Os resultados não comprovam que a cannabis seja ineficaz contra a insônia. A conclusão é que as pesquisas disponíveis ainda são insuficientes para determinar se o tratamento funciona e quais pessoas poderiam se beneficiar dele.O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Manitoba, no Canadá, e do Centro Associado Cochrane da Universidade Hospital Italiano de Buenos Aires, na Argentina.O que é a insônia?A insônia é um distúrbio do sono que pode dificultar o início do sono, provocar despertares durante a noite ou fazer com que a pessoa acorde sem se sentir descansada.Quando persiste, pode prejudicar as atividades diárias e está associada a maior risco de problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão.Entre as opções de tratamento estão a terapia cognitivo-comportamental para insônia e medicamentos.A escolha depende das características de cada paciente e deve considerar os benefícios e os riscos das intervenções.O que os estudos encontraramA revisão reuniu nove ensaios clínicos com adultos de 18 a 76 anos que estavam em tratamento para insônia. Em oito estudos, os pesquisadores compararam a cannabis medicinal regulamentada a um placebo. No outro, a comparação foi feita com a amitriptilina, um antidepressivo.Os produtos analisados tinham diferentes composições e concentrações de substâncias da planta, como o tetrahidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD), o que dificultou a comparação entre os resultados.No conjunto, os estudos não demonstraram melhora clinicamente significativa na qualidade do sono, no tempo total dormido ou no funcionamento durante o dia. Leia também SaúdeTHC da Cannabis pode ajudar a diminuir células agressivas de câncer de mama SaúdeComposto da cannabis é eficaz no tratamento do estresse pós-traumático SaúdeCanabidiol: entenda quando a cannabis medicinal é permitida no Brasil BrasilCannabis medicinal: Anvisa simplifica prescrição e autoriza exportação A revisão também identificou uma possível melhora na qualidade de vida entre os participantes que usaram cannabis medicinal, mas a certeza desta conclusão foi muito baixa. Os dados eram compatíveis com resultados que variavam de uma pequena piora a uma melhora considerável.Em relação à segurança, os participantes que receberam cannabis medicinal tiveram maior probabilidade de relatar efeitos adversos leves, principalmente boca seca e tontura. A conclusão, porém, também se baseou em um número limitado de estudos.Por que as evidências são incertasOs autores classificaram a certeza das evidências como muito baixa a baixa. Entre as limitações estão o risco de viés nos estudos, as diferenças entre os resultados e o número reduzido de participantes.O tempo de acompanhamento também foi limitado. O estudo mais longo durou 12 semanas, o que impede conclusões confiáveis sobre os efeitos do uso prolongado.Outro ponto é o perfil dos participantes. As mulheres representaram 72,66% da amostra, e os dados se concentraram em pessoas com insônia primária, ou seja, sem associação com outra condição de saúde. Por isso, os resultados podem não representar adequadamente homens, idosos e pessoas com outras doenças.“Isso não significa que a cannabis medicinal seja ineficaz. Significa que, com base nas evidências que temos, não podemos tirar conclusões confiáveis sobre sua eficácia para insônia na população em geral”, destaca Lucia Varela, principal autora da revisão e pesquisadora da Universidade de Manitoba.Os pesquisadores defendem a realização de ensaios clínicos com métodos mais rigorosos, amostras maiores e períodos de acompanhamento mais longos antes de recomendar a cannabis medicinal para tratar a insônia.








