Política / Eleições 2026

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Tendência de mais um placar apertado, decidido por poucos votos, leva os postulantes que representam a polarização a apelar para que os eleitores marquem presença no dia 4.

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Lula e Flávio Bolsonaro em atos de campanha — Foto: Divulgação

Depois de um 2022 com reduzida alienação eleitoral, termo dado para a soma da abstenção com os votos em branco ou nulos, a disputa deste ano faz analistas aventarem a possibilidade de um percentual maior de “não voto”, o que também está no radar das candidaturas na semana final antes do primeiro turno. O cenário é alicerçado em dados como a rejeição acima de 50% a Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), os dois principais candidatos, e na percepção de que a campanha, repleta de escândalos, mobilizou pouco as militâncias e deixou o eleitor extenuado.

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A tendência de mais um placar apertado, decidido por poucos votos, leva os postulantes que representam a polarização a apelar para que os eleitores marquem presença no dia 4. Historicamente crítico para Lula por ser forte em bases do petismo, sobretudo entre os mais pobres, o não comparecimento é hoje multifacetado e tem efeitos imprevisíveis, segundo pesquisadores. Dados evidenciam, por exemplo, que Flávio cativa menos o campo da direita do que Lula o da esquerda.
Um fator cada vez mais decisivo é o de idade, dadas as mudanças na pirâmide etária do país. Quase um em cada quatro eleitores tem mais de 60 anos, e Lula registra entre eles, nas pesquisas Quaest e Datafolha recentes, sua maior vantagem contra Flávio. Como o voto é facultativo a partir dos 70, idade em que a abstenção não exige justificativa, o presidente passou a pedir nos últimos dias para que os idosos compareçam às urnas.
— Precisamos convencer as pessoas de 70 anos a votar. Levanta a bunda e vai votar, o Brasil precisa de você — pediu durante carreata em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, na quinta-feira.
Além das declarações nas ruas, o petista gravou vídeo com a influenciadora Ademara, que soma cerca de 700 mil seguidores no Instagram, no qual fez o mesmo clamor pelo voto dos mais velhos. O conteúdo cita que a abstenção entre os brasileiros acima de 70 anos, um em cada dez eleitores aptos, ficou próxima dos 60% em 2022. Outro movimento, este via caneta do governo, foi o anúncio de que o voto na eleição servirá como prova de vida a aposentados e pensionistas do INSS.
A rejeição de Lula e Flávio, segundo a Quaest — Foto: Arte O Globo
Mudança como aposta
Já Flávio quer convencer as pessoas a saírem de casa com base no argumento de que representa a mudança, dizem integrantes da campanha. O discurso foi ensaiado na entrevista à TV Globo, ainda em agosto, e tende a ser martelado nesta semana final, a fim de explorar a alta desaprovação ao governo.
— Foram mais de 32 milhões de pessoas que não foram votar nas eleições de 2022, e ela foi decidida por algo em torno de 2 milhões de votos. É muito importante que você participe se você também quer uma mudança no seu país — pediu o senador na ocasião.
A tentativa de se vender como a mudança dialoga com a onda global de vitórias da oposição, marcante depois da pandemia. O próprio Lula se beneficiou disso em 2022, quando Jair Bolsonaro (PL) foi o primeiro presidente a não conseguir se reeleger desde que a possibilidade foi admitida por uma emenda constitucional em 1997. Flávio pretende estimular o desejo de alternância e transformar isso em comparecimento e voto.
Referência em estudos eleitorais, o cientista político Jairo Nicolau, professor da FGV-CPDOC, avalia que as pesquisas recentes não permitem prever de forma inequívoca que haverá aumento da abstenção e de votos em branco e nulos. Mas pela percepção que tem da campanha, é o que ele espera.
— Intuitivamente, acredito que haverá um incremento das duas coisas: abstenção e brancos e nulos. Posso estar errado — ressalva. — É claro que, se a eleição ficar mais renhida no segundo turno, o eleitorado ainda apático pode ser convencido a sair de casa.
Série histórica de abstenção, brancos e nulos — Foto: Arte O Globo
Em artigo recente, Nicolau abordou uma característica pouco explorada da campanha de 2022: a redução dos votos brancos e nulos, que caíram pela metade no primeiro turno, na comparação com 2018, e de forma ainda mais brusca no segundo turno.
— Foi uma eleição muito acirrada, que mobilizou muito — afirma, sugerindo que essa redução pode ter sido importante para a vitória de Lula.
O cientista político Lucio Rennó também vislumbra a possibilidade de baixa participação. Professor da Universidade de Brasília (UnB), ele publicou na semana passada um estudo do ObservaDF, feito com eleitores do Distrito Federal, que diagnosticou o desalento das pessoas com a política e a eleição. Os resultados, pondera, não são aplicáveis ao país todo. Mas indicam um desânimo que pode culminar na alienação eleitoral.
— A abstenção e o não voto, em geral, têm se mantido estáveis ao longo das eleições. É muito difícil prever, pela série histórica, se vai ou não aumentar. No entanto, há uma sensação, confirmada por dados, de que existe um desinteresse muito grande nessa eleição. Tem engajamento baixo, pouca gente mobilizada — aponta. — Pelo conjunto, por esse desalento, não seria surpresa uma abstenção maior.
Indicativos
Historicamente, reforça Rennó, a literatura associa a abstenção a um prejuízo ao PT. Nas últimas eleições, contudo, isso vem mudando, e a conjuntura atual torna difícil cravar quem será mais afetado. A transformação ocorreu na esteira do surgimento do bolsonarismo, que promoveu reconfigurações no perfil do voto no país.
A Quaest tem um dado que faz o diretor do instituto, Felipe Nunes, considerar que Flávio corre o risco de ser prejudicado pelo não voto: apenas 50% dos eleitores que se dizem de direita, mas não bolsonaristas, acham que o filho de Bolsonaro era o melhor nome possível do campo para a disputa. Na esquerda não lulista, 79% avaliam que Lula é a opção ideal.
Na visão do fundador do instituto Ideia e colunista do GLOBO Mauricio Moura, há todo um conjunto de dados que permite esperar uma participação reduzida.
— É um ciclo eleitoral de baixo entusiasmo. Os dados que corroboram esse sentimento são as altas rejeições das principais candidaturas, o elevado índice de indecisos na pergunta espontânea de intenção de voto e, ainda relevante, o percentual de eleitores que dizem não ter o voto definido — elenca. — Essa combinação costuma gerar um aumento de abstenção, brancos e nulos.
Na Quaest da semana passada, 35% ainda se diziam indecisos na espontânea, modalidade em que os entrevistados não são apresentados aos nomes dos candidatos.
A Quaest e o Datafolha têm formas diferentes de medir a rejeição. No primeiro instituto, que testa se o eleitor “conhece e não votaria” nos candidatos listados, Lula e Flávio são rechaçados por mais da metade dos entrevistados — 55% e 56%, respectivamente. O Datafolha pergunta em quem eles não votariam “de jeito nenhum”, e os resultados dão percentuais menores, mas também superlativos: ambos são rejeitados por 45%.
Traçar o perfil de quem se abstém exige às vezes que diferentes clivagens sejam cruzadas. No livro “O país dividido”, lançado este ano pela Zahar, Jairo Nicolau dá o exemplo das mulheres. Apesar de comparecem mais que os homens às urnas, a diferença é nítida na separação por escolaridade. Nos grupos de analfabetos, de pessoas que apenas leem e escrevem e dos com ensino fundamental incompleto, os homens votam mais. A partir do ensino fundamental completo, e especialmente nos de ensino médio e superior, a participação feminina é bem mais alta.
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